Velhas manias


Lá estava ele, andando pelo corredor de forma decidida, posso até dizer alguns centímetros mais alto. Anos atrás esse andar era bem diferente: os ombros que agora estão para trás, dando o ângulo correto da coluna ereta, antes eram para frente; a cabeça erguida que está sustentando um sorriso brilhante e verdadeiro, tomou o lugar de um semblante abatido e de sorrisos esporádicos forçados; o olhar triste e distante agora deu lugar para um confiante e astuto. A voz, por outro lado, continua a mesma, grave. No mesmo tom de um sussurro urgente.

Sorrindo de alguma coisa dita pelos amigos, ele passa por onde eu estou sentada. Um banco de madeira marrom no meio do corredor. Não tinham muitas pessoas nessa hora. Provavelmente estavam em algum das lanchonetes do campus almoçando. Mas, mesmo assim, com a euforia dos amigos ele não me notou. Mas, isso não importa muito, uma vez que o tempo transforma as pessoas, mas não consegui mudar tudo. A essência, que está profundamente enterrada dentro de si, não se modifica assim tão fácil e drasticamente. Todavia, do mesmo jeito que ele mudou, para melhor, diga-se de passagem, eu mudei. Uma mudança sutil, quase imperceptível. É isso que eu repito todos os dias diante do meu reflexo no espelho.

Não esperado e tão de repente, ele senta-se ao meu lado e dirigi aquele sorriso verdadeiro para mim, que chegou os olhos escuros e levemente puxados e ao meu coração. Não conseguir não o responder com um sorriso também. Então esperei que viesse. E ele não veio. E foi nesse momento que sentir a minha mudança: eu não tinha medo. O medo que antes me consumia diante, somente, da possibilidade de aproximação, seja dele ou de outrem, me amedrontava. As palavras ditas todas as manhãs não eram vagas, mesmo que não comprovadas, até aquele momento, a propósito.

O meu sorriso virou uma gargalhada. Depois uma crise, daquelas de cair lágrimas. E ele me acompanhou. Pois tão perdida quanto eu estava diante de mim mesma, ele também estava.

A nossa essência foi mudada, também. De amedrontados com a vida para desbravadores dela. Agora somos completamente diferentes e livres.

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